Na ausência de políticas públicas para moradores do Sítio, o tráfico perdura e a polícia tem mão dura com moradores da comunidade
por Martihene Oliveira
O retrato do território no fogo cruzado
E não estamos falando das escadarias coloridas usadas recentemente como cenário de influenciador candidato que fala de vigilância armada, há um local no Córrego do Sargento que foi preterido pela Prefeitura do Recife mas é o local preferido da polícia de Raquel Lyra. Por lá, tiros e mortes tornaram-se recorrentes. Falar de segurança pública é um tema caro para quem comunica na periferia tendo em vista que o limbo entre ter um vizinho, primo, irmão, amigo de infância assassinado e a alta vulnerabilidade ao tráfico de drogas na ausência de um Estado eficiente é um dos maiores desafios.
Se no Sítio tivesse iluminação, pavimentação, espaço de lazer, horta comunitária e biblioteca
Seria uma utopia dizer que talvez o tráfico de drogas não existisse no Córrego do Sargento com tanta força quanto existe agora? Na comunidade conhecida como o local da “melhor flor”, achar que o tráfico não continuaria sua disputa pela tomada do território seria comprovar uma ingenuidade idealista, contudo, um experimento realizado em 1970 pelo psicólogo canadense Bruce Alexander, ficou conhecido como Rat Park (Parque dos Ratos). Cientistas colocavam um rato sozinho em uma gaiola estéril, com apenas duas garrafas de água — uma com água pura e outra com água misturada a uma droga (como morfina ou heroína). Sem parques, sem companhia, sem qualquer outro tipo de distração que lhe gerasse prazer, o resultado é que o rato consumia compulsivamente a água com a heroína.
Em outra gaiola, batizada como Rat Park, outros ratos receberam as mesmas garrafas, uma com água pura e outra misturada com a droga, contudo, para além das garrafas eles estavam cercados de brinquedos variados, alimentação adequada, além do não-isolamento social. Nesse cenário, os ratos que viviam por lá ignoraram quase que totalmente a água misturada com heroína.
Talvez, uma das maiores reportagens que essa repórter já escreveu tenha sido a partir da escuta de pessoas como ela para falar de dores e contar suas perdas enquanto pessoas pretas e periféricas. Na época, entrevistou um menino de 13 anos, que ainda possuía os olhos esbugalhados quando falava das mortes que presenciava desde os 3 — Juninho*, forçava uma naturalidade e ostentava dizendo que tinha visto mais mortes do que sua ouvinte. Hoje, aos 20*, é um dos jovens que correm da polícia, que tem sua foto junto com outros meninos do Córrego do Sargento espalhada pelos grupos militares de whatsApp e que a gente nunca sabe se será mais uma estatística a cada enxurrada de balas na comunidade.
Segundo o Censo Perifa 2024, realizado pelos próprios moradores, no Córrego do Sargento, em Linha do Tiro, zona norte do Recife, em uma pesquisa com 306 famílias entrevistadas, 32,4 % afirmou que já perdeu alguém para a violência urbana enquanto que 14,7 % possuía alguém em situação carcerária. As mulheres, por sua vez, ocuparam nesse grupo o percentual de 15% das vítimas de feminicídio, enquanto apenas 17% afirmou conhecer alguma mulher em situação de violência.
Estamos em ano de eleição para presidente, senadores, governadores e deputados federais e estaduais. Se entre os presidenciáveis a maior parte dos candidatos fortalecem o discurso do “bandido bom é bandido morto”, em Pernambuco, enquanto o prefeito que negou infraestrutura para o “Sítio’ do Córrego do Sargento tenta a eleição pro governo, usando a morte ocorrida na tarde da última terça-feira (29) como palanque, a governadora se esforça para se manter no espaço vendendo uma falsa sensação de segurança.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 o Brasil registrou 6.602 mortes decorrentes de intervenção policial, em Pernambuco foram registradas 89 mortes, uma alta de 30% na comparação com o ano anterior. O perfil das pessoas mortas dentro desse cenário é voltado para jovens com idades entre 18 e 29 anos, negros e homens.
A região metropolitana do Recife, segundo o Instituto Fogo Cruzado, registrou mais que o dobro de baleados vitimados no ano anterior. Enquanto em 2025 houveram 29 casos ocorridos na capital pernambucana, em 2026, esse número saltou para 52.
A prefeitura de João Campos, em 2025, procurou o Sargento Perifa para articular com os moradores onde cada demanda do Projeto Mais Vida deveria ser executada. As pessoas pediram por espaços de lazer, horta comunitária, biblioteca e iluminação na área mais vulnerável do território conhecida como “Sítio”, situada após a Igreja Evangélica Assembleia de Deus, — único equipamento da comunidade para além da sede do Coletivo Sargento Perifa. Apesar disso, apenas a entrada do Córrego do Sargento foi contemplada e esta foi a mesma que serve até hoje como cenário nas propagandas eleitorais. Que João tem um ponto por fazer as encostas do Córrego do Sargento, depois de mais de 20 anos de gestão PSB e 13 mortes por deslizamentos ao longo de vários anos, isso é reconhecido pelos moradores, mas quando o assunto é mecanismos que devem ser implantados pela prefeitura como ferramentas de mitigação da insegurança, Prefeitura do Recife e Governo de Pernambuco falham com territórios como o Córrego do Sargento. O argumento do Gabinete de Gestão e Inovação da prefeitura foi o de que a área solicitada está fora do perímetro da entidade — um balde de água fria para quem vê no “príncipe da cidade” a oportunidade de melhorias para o Córrego do Sargento e um questionamento que não se cala: Por que que só a entrada do território é a que aparece no cartão postal da Prefeitura em relação ao Córrego do Sargento?

Foto de moradora enviada ao Sargento Perifa logo após projétil quase atingir cabeça de idosa na comunidade
Ainda assim, esse cartão postal de escadarias e encostas coloridas, onde crianças já tiveram que se jogar de cima para baixo para não serem alvejadas pelos tiros da polícia de Raquel Lyra aparecem nas redes sociais de candidatos seja como ferramenta para voto ou como cenário de informações fantasiosas. As mensagens que falam de bala e esperança não casam na mesma linha escrita por ambos elegíveis ao governo, enquanto podem ser ferramentas de discurso que adoça a boca do eleitor, são, também, uma barra de fel para morador de comunidade como o Córrego do Sargento que além de viver um dia de cada vez no território precisa ainda desmentir as fake news eleitorais.
Sobre o toque de recolher e a invasão das facções em territórios do Recife
Não há uma informação oficial que afirme que moradores devem se recolher aos seus aposentos a partir de determinado horário, por via de dúvidas e medo, moradores preferem não arriscar, porém, apesar dos cartazes criados com Inteligência Artificial circulados via grupos de WhatsApp, nenhum pronunciamento da Polícia Militar de Pernambuco informando se é verdade ou mentira foi realizado até o momento. Vale ressaltar que as mensagens já circulam desde o ano passado e as mortes ocorridas no território soam assombradas por relatos de facção.
Por dois anos o Córrego do Sargento esteve com zero mortes por violência urbana, contudo, de 2025 até setembro de 2026, três assassinatos já ocorreram, todas as vítimas eram homens com faixa etária entre 28 e 40 anos de idade. Todos eles moravam a menos de 2 meses na comunidade.
No palanque da prefeitura ou na viatura da polícia
Se os serviços sociais e as obras da prefeitura travam no “limite do perímetro”, a polícia da governadora entra sem pedir licença e sem limite geográfico. Para a moradora Madalena*, 57* anos, falar de segurança pública para o Córrego do Sargento já é sinônimo de medo. O Sargento Perifa junto com outras organizações de jornalismo de causa espalhadas pelo país, desenvolveu uma pesquisa para saber o que seria prioridade para os moradores do Córrego do Sargento. A pesquisa foi realizada no início de setembro de 2026 e constatou que a presença policial na comunidade é descrita majoritariamente como fator de medo. Em um dos episódios relatados, três motos da ROCAM, com policiais armados com fuzis em cada veículo, adentraram o córrego com nítida postura de intimidação aos moradores.
No dia 11 de setembro, logo após a realização da pesquisa, o Córrego do Sargento presenciou uma das maiores enxurradas de bala reproduzidas pela polícia. A moradora Andorinha*, 40 anos, se jogou no chão e teve o joelho ralado junto com seu companheiro para não serem atingidos, já Felipa*, que estava falando ao celular com uma amiga, ao ouvir os tiros, escondeu-se embaixo da cama.
No dia 11 de julho de 2026 a governadora Raquel Lyra junto a Secretaria de Defesa Social publicou o “Dia Zero” — uma menção a zero mortes por violência urbana em Pernambuco. Apesar disso, mesmo em queda, a região metropolitana do Recife registrou ao menos três tiroteios por dia no mês de agosto. O mês teve ainda 112 pessoas baleadas; 82 delas morreram. Os dados são do Instituto Fogo Cruzado, no último levantamento apresentado no dia 15 de setembro de 2026.
Com mandato e sem mandado
Vender um discurso populista de segurança em cena de campanha eleitoral quando a prática se traduz em abordagens truculentas e violações de direitos, mostra como o desconhecimento dos próprios direitos e a falta de assistência jurídica histórica fragilizam ainda mais os moradores.
Enquanto isso, é importante ressaltar que em ano eleitoral, a verdadeira segurança pública não se faz com maquiagem nem gatilho.
Os nomes e idade das pessoas entrevistadas foram totalmente modificados por questões da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) 13.709/2018