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Córrego do Sargento vira tela de cinema na Zona Norte do Recife

04/nov/2025  |  Gilberto Luiz da Silva

Muros de arrimo se transformaram em projeção de pertencimento e narrativa periférica durante a Mostra de Cinema Arrimo, na Linha do Tiro

 

No período de 27 de outubro a 2 de novembro, o Córrego do Sargento, comunidade do bairro de Linha do Tiro, na Zona Norte do Recife, foi ocupada pela arte, pela formação e pelo encontro com a realização da Mostra de Cinema Arrimo. O evento gratuito transformou os muros de arrimo da comunidade em grandes telas de cinema ao ar livre. A iniciativa ressignificou o território como espaço de convivência, criação e visibilidade.

A ação ocupou o território com oficinas, exibições e trocas coletivas. Durante a semana, moradores de diferentes idades participaram da oficina “Outros Cinemas e o Minuto”, ministrada por Mila Nascimento, Uilma Queiroz e Alexandrehn, onde aprenderam a produzir curtas-metragens com seus próprios celulares. As sete produções resultantes — com até um minuto de duração — foram exibidas no Barreirão, em um cinema ao ar livre que reuniu mais de 100 pessoas no encerramento do projeto.

Para Janaína Guedes, uma das proponentes da mostra, transformar o muro em tela é também um ato político: “é permitir que as pessoas se reconheçam na tela, que ocupem as ruas e os espaços públicos como lugares de convivência, segurança e cultura. É sobre ampliar as narrativas e afirmar o direito de existir com arte e luz nas periferias”, afirma.

A curadoria assinada por Neco Tabosa reuniu mais de 30 filmes que abordam temas urgentes: território, resistência, tecnologia, violência policial, luto e vida. Produções de várias regiões do país, como as animações “Coisa de Preto” (BA), “Lá na Frente” (PE) e “Medo Monstro”, ganharam novo sentido ao serem projetadas nas paredes das favelas.

O evento foi realizado com apoio do Coletivo Sargento Perifa, que atua na comunidade promovendo cultura, educação e protagonismo local. Segundo um dos fundadores do coletivo, Gilberto Luiz, a mostra representa “uma forma de ocupar o espaço com arte e de mostrar que as histórias do morro merecem ser contadas e vistas por todos”.

Entre os moradores, os depoimentos refletem a experiência do cinema na comunidade: “Nunca tinha assistido um filme assim, na rua, com todo mundo do bairro junto. Foi emocionante ver minha história refletida na tela”, afirmou Indileize, moradora do Córrego do Sargento

As atividades da mostra incluíram sessões de cinema realizadas nas ruas da comunidade, uma oficina de audiovisual com celulares voltada para jovens e adultos, e exibições de curtas-metragens produzidos por moradores ao lado de uma curadoria de mais de 30 obras que dialogam com território, identidade e produção periférica.  

Além de projeção, o gesto foi simbólico: os muros de arrimo, que sustentam fisicamente os morros do Recife, passaram a abrigar filmes e histórias de quem vive no morro, afirmando pertencimento e visibilidade.