por Martihene Oliveira
Quando uma mãe perde um filho todas as outras choram com ela e isso é fato. A lógica da natureza não é a de mães que enterram seus filhos, mas sim a crença de que você nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre, contudo, para jovens de periferia, chegar à velhice é um caminho extenso a ser percorrido. Mais extenso do que o normal, são muitos ciclos de 365 dias com 24 horas mais intensas do que outras pessoas enfrentam habitualmente.
Quiçá todo mundo tivesse as mesmas 24 horas, dessa forma o famoso “somos todos iguais” de algum modo faria mais sentido porque, confesso a vocês: pra gente que tá do lado de cá e escuta isso do lado de lá, não faz sentido nenhum. Achar que todos nós temos as mesmas 24 horas é colocar o motorista e o motoqueiro no mesmo ponto de partida com o mesmo tempo e distância para a linha de chegada. Nesse contexto, se for preciso colocar uma pessoa negra representada para disputar com os outros dois, essa pessoa será a que estará a pé, com as mesmas 24 horas, a mesma linha de chegada e a mesma vontade de chegar também.
Vontade essa de chegar que não faltou para João Romário, 32 anos, morador do Córrego do Sargento, em Linha do Tiro, assassinado no bairro da Guabiraba assim que o juiz apitou o fim da Copa do Mundo e o troféu da Espanha sobre a Argentina. A camisa verde e amarela, perfurada pelas balas disparadas, ensanguentou a criança que, como muitas outras, sonhou em ser jogador de futebol.
No dia 23 de julho o estado de Pernambuco, segundo a Secretaria de Segurança Pública, apresentou 24 horas sem mortes violentas nos 184 municípios e no distrito de Fernando de Noronha, coisa que me deixou abismada. Faltou dizer quantos feridos, quantas quase mortes, quantas foram atingidas nas últimas horas dessas 24h e morreram quando o cronômetro zerou. Seria cômico se não fosse trágico entender que a Polícia Militar tem a foto de todos os meninos das comunidades circulando em seus grupos de whatsApp, entra no território todos os dias, dispara tiros “ao vento” todos os dias mas nunca está na hora dos assassinatos.
Apesar do número zero, na sexta-feira de 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, milhares de negras tomaram as ruas do país pela vida delas e a justiça pela memória de seus filhos, maridos, irmãos e irmãs. A Rede das Mulheres e Meninas do Perifa esteve lá por Romário.

Sete dias hoje sem João Romário, o filho de Riso, neto de Lúcia, irmão de Mayra e Mylena, integrantes da rede de mulheres. Um filme que se repete todos os dias nas muitas periferias do país, que fez a família da repórter que vos escreve viver esta mesma cena, na Copa de 1998, quando Ezequiel Oliveira, 38 anos, filho de Maria Diogo, neto de Georgina (que nasceu na Lei do Ventre Livre), irmão de Marta, Noêmia, Miriam e Carmelita, cuja rede de mulheres era sua própria casa e cujo coletivo era apenas a igreja, registrar o primeiro assassinato de sua vida sendo este o desencadeador de muitos outros.
Uma lógica inerrante, uma bala perdida ou encontrada que alimenta o “tempo de colher” apresentado por quem só narra fatos, mas que não possui vivência. Que alimenta a máquina da demência projetada para o povo preto, encrostando as escamas dos olhos de negros e negras nas periferias, que assistem aos jornais policiais e aceitam a ideia do “mais um CPF cancelado” enquanto estraçalham suas coxas de frango — quando se tem.
Olhar o CPF do filho estampado na TV não é o mesmo que olhar o CPF do “bandido”, — aliás, bandido é o título que mais assombra mães e pais de periferia. Quando alguém se torna “bandido” já recebeu a sentença. Adeus segundo grau completo, adeus sonho de ser jogador, adeus emprego de gari. Mesmo que se cumpra a pena, como no caso de Romário, o título, para quem já leu a história, será sempre o mesmo.
Criar um menino na comunidade é viver todos os dias em alerta e fazer de tudo pra chegar com o dinheiro da bike antes do tráfico. E tá tudo bem escrever sobre isso pois se tem uma coisa que esta repórter de favela já entendeu é que nem o próprio traficante quer seu filho seguindo os mesmos passos que ele deu. Há um prazo de validade para crianças sonhadoras, quando elas moram na periferia, lá pelos 8 anos, a ficha já vai caindo. A vida adulta chega mais rápido pro lado de cá e a responsabilidade vai fluindo como numa troca de mercadoria. A maturidade chega com socos, pé na cara e bala e as crianças que sonhavam começam a cometer seus deslizes.
O mais velho de quatro irmãos, no privilégio de um segundo grau completo, demorou mas entendeu que ser negro no Brasil é insistir, persistir, cair e levantar, correr triplicadas vezes até segurar os cabelos da oportunidade que passa e não volta. Talvez já sentisse que não há segundas chances, que você precisa fazer de tudo para ser aceito e que não pode ser preso de jeito nenhum porque será apenas mais um. Que reabilitação social, embora a intenção seja boa, é mais falácia do que prática.
Na lei do CPF cancelado, a maneira que você encontrar para sobreviver será nomeada como desvio de caráter e independentemente disso ser provado ou não, você estará mais perto do fim.
Entender que o dinheiro fácil lhe custa o preço do amanhã, que quanto mais ganhar mais vai perder e que o relógio da vida não para. Que sua mãe vai chorar copiosamente por dias e estará de luto para sempre, que o pranto da ausência não será cessado, e que apesar do seu medo de morrer talvez você não consiga evitar.
E mesmo que você cumpra sua pena e mostre para os mais novos do seu território onde estão as minas explosivas para que a turma não repita o mesmo passo, pra você, já foi. A sentença foi além da prisão, o choro copioso dos pirralhos será inevitável,— mas as flores da comunidade vão dizer que você foi amado.
Você vai, Romário, finalmente descansar em paz. Encontrar outros parentes e amigos jovens e se reunir aos milhares que também foram sentenciados à mesma pena que você cumpriu.
Porque no final, tanto faz se a notícia é o massacre do Carandiru, a chacina do Rio de Janeiro, os assassinatos da Candelária, ou o caso isolado da comunidade. O Brasil mata 89,9 negros por dia, 1 a cada 16 minutos.