Quase metade das mulheres vítimas de violência doméstica são evangélicas

Foto: Rede das Mulheres e Meninas do Perifa
Falar de violência de gênero na periferia e não inserir mulheres evangélicas em conversas aprofundadas sobre a temática é ignorar 58% de um público extremamente relevante. Se tratando de mulheres negras, elas pautam opinião e estão situadas no centro de cada núcleo familiar, chefiando casas, participando de decisões, movimentando a renda do território, servindo de alguma maneira.
Como já diz Angela Davis “quando uma mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela” e não pensar estratégias para alcançar negras e crentes é contradizer as muitas pregações dos movimentos sociais que focam no combate à violência contra a mulher principalmente em comunidades periféricas.
A pesquisa Visível e Invisível: a vitimização da mulher brasileira, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, afirma que no quesito religião, 42,7% das mulheres evangélicas sofreram alguma forma de violência por parte do parceiro íntimo, já entre as católicas, o índice é de 35,1%. Os motivos: casamentos com o slogan “até que a morte nos separe”, interpretações distorcidas sobre submissão e o silêncio religioso nas igrejas que performam ambientes conservadores majoritariamente liderados por homens.
Ainda, segundo a pesquisa, mulheres com baixa escolaridade e baixa renda são as mais afetadas pela violência. É justamente esse grupo que possui mais dificuldade de ser inserido em redes de acolhimento.
No Córrego do Sargento, em Linha do Tiro, o Censo Perifa 2024 entrevistou 306 moradoras e moradores, as mulheres ocuparam o maior percentual das entrevistas com um número de 195 (63,7%).
Dona A., 69 anos, negra e evangélica, decidiu fechar um ciclo de violências que viveu por quase 40 anos nas mãos do ex-marido: “Ele me humilhava muito, me batia e me tratava como um nada. Aguentei muito tempo pensando nos meus filhos e porque a gente casa para o ‘até que a morte nos separe, né?’, mas não quero mais isso pra minha vida e decidi dar um basta”, afirmou a idosa em roda de conversa da Rede das Mulheres e Meninas do Perifa.

Foto: Rede das Muulheres e Meninas do Perifa
Os relatos de violência de gênero e feminicídio do território geram algumas reflexões: 15% das famílias da comunidade afirmam terem sido direta ou indiretamente afetadas pelo feminicídio, ou seja, a morte da mulher por ser mulher que era filha em uma casa e sobrinha em outra, mas que ambas participaram das entrevistas. Apesar disso, quando o assunto é violência de gênero, apenas 17% dos entrevistados afirmaram conhecer ao menos uma mulher vítima de agressão. Tendo em vista os muitos relatos apresentados nas reuniões mensais da rede de mulheres do território, a conta não fecha nessas entrevistas. Isso pode ter se dado ao medo de denunciar, a falta de esclarecimento dos moradores sobre as nuances/tipos de violência de gênero ou ao machismo mais explícito que considera irrelevante mencionar as agressões a terceiras, dando força ao velho jargão que diz que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 9 em cada 10 mulheres que sofreram violência em 2024 disseram que alguém presenciou o episódio; 27% dos casos foram testemunhados pelos filhos. Mulheres negras, entre 2021 e 2024, ocuparam 62,6% dos 5.729 registros oficiais do feminicídio, enquanto 36,8% eram brancas e 0,3% representaram as indígenas e amarelas.
Se para cada movimento da mulher negra, a sociedade se movimenta com ela, a cada mulher negra morta, morre também a estrutura de um núcleo familiar.
Para denunciar, ligue 180 e fale com a Central de Atendimento à Mulher.