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Àguas de fevereiro: nada diferente para periféricos recifenses, chuvas no verão, deixam mortos e desabrigados

por Martihene Oliveira

Comunidade do Rio Morno – chuvas 2022 (Foto: Gabriel Félix – Sargento Perifa)

Em 2024 o Governo federal admitiu: Pernambuco possui mais de 1 milhão de pessoas que moram em locais com risco de morte. Segundo um estudo realizado pelo Ministério da Casa Civil, 11,1% dos pernambucanos se enquadram nessa situação. Só na capital, Recife, 226 mil pessoas não possuem moradia digna e ficam na mira das chuvas que causam alagamentos e deslizamentos de barreiras, segundo os dados da Defesa Civil apresentados também no ano passado. Entre os dias 5 e 6 de fevereiro, a região metropolitana da cidade computou seis mortes por choque elétrico, deslizamentos e afogamentos em bueiros. 

O Coletivo Sargento Perifa, em outubro de 2024, realizou um censo com os moradores da comunidade do Córrego do Sargento, em Linha do Tiro, zona norte recifense, para mapear o perfil do território. Escutamos 306 famílias, entre estas, 58 afirmaram morar em área de risco e ter problemas em suas casas quando chove. Esse número equivale a 19% da comunidade.

“Não me sinto segura quando chove pois pensamos que nossa família será mais um caso que estará registrado na televisão. Eu me sinto abalada, ontem mesmo foi um dia em que quando a gente estava para dormir foi o maior sufoco. Mesmo confiando em Deus, a barreira nos aflige muito”, afirma Betânia Ribeiro, moradora da comunidade. “Temos casos de deslizamentos aqui pertinho, anos atrás teve deslizamento e morreram pessoas. A gente não vê a hora de a Prefeitura concluir o serviço que está fazendo na rua”, concluiu.

Betânia Ribeiro (Foto: Jonas Ribeiro/Sargento Perifa)

O deslizamento citado por Betânia, aconteceu em 2010, bem próximo à sua casa, e levou a óbito cinco pessoas de uma mesma família, entre elas três crianças, mas esse não foi o primeiro deslizamento com mortes no Córrego do Sargento —, nos anos 70, oito pessoas morreram. 

Nas chuvas de 2022, o Sargento Perifa conviveu com o desafio de visibilizar a voz de diversas famílias dos bairros de Linha do Tiro, Campina do Barreto, Santo Amaro e São José. Às margens do Rio Morno, principal afluente do Rio Beberibe, a comunidade da Vila Vintém enfrentou a água no pescoço, com moradores em gritos de desespero para salvarem suas vidas. 

Caminhando pelas margens desse mesmo rio, sentido ao bairro de Beberibe, a comunidade do Rio Morno que contorna a Escola Municipal Paulo VI, precisou buscar abrigo na instituição que de início fechou as portas para mais de 200 famílias. Com a publicação do Sargento Perifa e apoio das páginas do bairro, nas redes sociais, a diretora voltou atrás e permitiu que as famílias entrassem, tornando o Paulo VI o maior ponto de abrigo do bairro de Linha do Tiro naquele período. Uma mulher grávida ficou ilhada com seus filhos em sua residência, sem conseguir atravessar com seus filhos o mar de lama e com medo de suas coisas serem saqueadas.

Vila Vintém – Chuvas 2022 (Foto: Gabriel Félix/Sargento Perifa)

Mais adiante, seguindo sentido a cidade de Olinda, o rio e o lixo expulsou moradores da Favela do Condor de suas casas, um motociclista foi engolido pela chuva e foi encontrado no local.  Maria, moradora da comunidade, informou que precisaram colocar uma escada por baixo da ponte para salvar a todos por ordem de prioridade. 

Segundo o Coletivo Redes do Beberibe, via Lei de Acesso à Informação, a Prefeitura do Recife informou que os gastos com lonas para cobrir barreiras, entre 2021 e 2023, foram de R$18 milhões. Mesmo com tanto dinheiro com o plástico preto, as lonas não foram suficientes para atender mais de 240 solicitações de cobertura de barreiras para áreas de risco no Recife somente no mês de janeiro de 2025. 

Segundo a Prefeitura do Recife, residências mapeadas por sua equipe que antes eram consideradas de baixo risco, agora passam a ser consideradas de alto risco. Vale ressaltar que ainda estamos em fevereiro, época de pleno verão.