Carrinho

Fora do perímetro: o medo que o Estado não pintou

Enquanto projeto estampa cores na entrada da comunidade, mais da metade do Córrego do Sargento sofre com a violência e a falta de serviços básicos

por Martihene Oliveira

Há uma divisão nos dados sobre o Córrego do Sargento demarcada pela parte colorida pintada pela Prefeitura do Recife e entregue no final do ano de 2025. Seis meses depois, quem mora na entrada da comunidade, alcançada pelas cores do Mais Vida – projeto do Gabinete de Inovação Urbana da gestão municipal – continua convivendo com o medo, pois a insegurança originada pelo tráfico e a polícia, a falta d’água e os muitos outros problemas naturalizados aos territórios periféricos são presentes na rotina de moradores e moradoras. Contudo, quem mora lá dentro, no Sítio, como chamam os moradores, na parte que a Prefeitura não foi, convive com a extremidade desse medo da ponta. São marcas de tiros em muros e portões. É a ausência do direito à cidade, do direito de ir e vir, do direito de pegar um Uber e de ter um entregador de ifood em sua porta. Do direito de não ser encontrado por uma bala perdida. Direito esse que encontra um bloqueio no cinza do concreto que não recebe cor.

Imagem produzida com Inteligência Artificial

Na madrugada desta segunda-feira (22) houve mais um assassinato no Córrego do Sargento, em Linha do Tiro, zona norte do Recife. Segundo os relatos, a enxurrada de tiros não foi muito diferente de uma outra que aconteceu recentemente, deixando marcas nos portões e muros das residências e fazendo mães solo se esconderem embaixo de suas camas com seus filhos. Essa parte que está fora do perímetro da Prefeitura não aparece nem no Street View (mapa) do Google e, sem cores, avistada de cima, é vista como um dossiê de mortes por drogas para rememória dos anos 2000 e 1990 no território, mas, para quem cresceu no córrego é um território de força e resiliência, local que deveria ser de descanso para trabalhadores e trabalhadoras.

Não deveria ser normal ter crianças entendendo como o tráfico de drogas funciona. Pais e mães que foram criados na comunidade terem seus filhos pequenos assustados com os tiros pedindo para morar em outro lugar. Ainda mais terrível é ter crianças com menos de 15 anos perdendo o terceiro padrasto assassinado — a parte do córrego sem tinta é uma fonte de relatos para qualquer jornalista.

Imagem produzida com Inteligência Artificial

No dia 22 de maio a Prefeitura do Recife respondeu ao nosso pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI) sobre os gastos e investimentos realizados no Córrego do Sargento e informou que o perímetro contemplado pelo órgão alcançou 50 metros do território, com um impacto para 221 famílias e 62 casas, beneficiando assim, 560 pessoas do território. Sendo que o Censo do Perifa, realizado em outubro de 2024, coletou entrevistas de 306 famílias e registrou 372 casas nas ruas Córrego do Sargento, Frei Jorge e Bismarck de Freitas. O perímetro inalcançado pela prefeitura contempla um pouco mais da metade do Córrego que foi pintada, nem a igreja, único local de encontros do território para além da sede do Sargento Perifa, aparece no mapa. 

Imagem produzida com Inteligência Artificial

No local mais vulnerável é onde as coisas acontecem. Onde a polícia entra sem mandado, independentemente de qual for a casa, onde as balas se tornam confetes, onde as pessoas são levadas para sumirem e nunca mais são encontradas, onde crianças crescem e onde rolou mais uma morte. 

A parte colorida do Córrego saiu nas redes sociais do candidato ao Governo, recebeu o banner de um vereador. A parte cinza, segue sem muita explicação para o povo, nem recebeu balde de tinta. Está fora do perímetro da Prefeitura, segundo os próprios representantes disseram. Quantas mortes ainda vão acontecer na parte do Córrego que é cinza?

 

Resposta da Prefeitura via LAI