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Eleições 2022: NÃO QUEREMOS SER CHAMADOS DE GUERREIROS E A FAVELA NÃO VENCEU COISA NENHUMA!

12/dez/2023  |  Sargento Perifa

Nós, jornalistas do Coletivo de Mídia Independente e Popular Sargento Perifa, viemos por meio desta reforçar o nosso posicionamento aos moradores das comunidades que atendemos e aos nossos seguidores, cuja maioria é composta de pessoas pretas e periféricas que acompanham a nossa rotina e a seriedade do nosso trabalho que, apesar de desafios como a falta de recursos financeiros, por exemplo, tem feito pelo nosso povo muito mais do que o Estado brasileiro.

Criamos o coletivo com o propósito de divulgarmos as coisas que acontecem na favela, de quebrarmos o estereótipo midiático que predomina nos jornais policiais, colocando o nosso povo à margem da sociedade em um retrato banalizado, repleto de crimes, tragédias e outros problemas. Não camuflamos os problemas do nosso dia a dia, contudo, a favela é vulnerável porque é negligenciada pelos governantes que regem o nosso país.

O Córrego do Sargento, por exemplo, nosso território, possui apenas duas instituições: uma igreja evangélica e o Coletivo Sargento Perifa, que ainda não tem sede própria e se desdobra entre os imensos desafios para suprir em nossa comunidade a ausência da educação, saúde, esporte e criticidade midiática. Não temos escolas, creches, praças, nem áreas de lazer. Muitos moradores residem em barreiras, outros já foram vítimas de grandes tragédias, não temos saneamento básico eficiente e nem tampouco moradia digna para todos.

Nestes dois anos de exercício do Sargento Perifa, optamos por não utilizar o coletivo para a propagação de partidos ou quaisquer que fossem os nomes políticos que nos procurassem, por respeito à diversidade entre os membros do coletivo, que atualmente possui mais de 60 pessoas espalhadas pelos mais de 18 projetos que atendem em nossos territórios com ações de combate ao racismo, à desigualdade social, à violência contra a mulher, dentre outros problemas. Contudo, diante do cenário atual, seríamos incoerentes se não assumíssemos, de uma vez por todas, o nosso posicionamento como dois jornalistas pretos, moradores de periferia, primeiro e primeira de nossas famílias a possuir um diploma de curso superior. Nós, assim como diversos outros pretos do nosso estado, temos feito do alcance suado que tivemos ao adentrarmos as portas de uma universidade, uma ponte para que nossos vizinhos, meninos e meninas de nossa comunidade possam alcançar com mais facilidade aquilo que chegou para nós com muita dificuldade.

Somos frutos das cotas raciais e por isso não compactuamos com políticas que enfraquecem essa conquista. Hoje temos os diplomas de bacharel e bacharela em Jornalismo porque nos beneficiamos de programas criados pelo governo Lula, como Sisu, Prouni e FIES. Quando crianças, fizemos parte do programa Bolsa Escola, iniciado pelo governo de FHC e continuado pelo governo Lula. Nossas mães pretas nos criaram com o Bolsa Família. A Farmácia Popular atendeu a muitos de nossa comunidade. Nós não fazemos o Perifa sozinhos, temos no nosso coletivo um número grande de jovens pretos, formados nas universidades públicas e privadas por causa dos programas do governo Lula e Dilma.

Há quem diga que tudo foi alcançado com o nosso esforço e sacrifício, há aqueles que nos chamam de “guerreiros” porque supostamente vencemos a batalha de lutar triplicadamente por aquilo que nossos amigos de classes sociais diferentes da nossa conseguiram sem esses mesmos problemas. NÃO QUEREMOS SER CHAMADOS DE GUERREIROS E A FAVELA NÃO VENCEU COISA NENHUMA! Tem muito chão para percorrermos ainda e muito grito nosso pra ecoar por entre os casebres, barracos e escadarias do nosso território. Não ficaremos de braços cruzados quando temos que suprir aquilo que o Estado tem obrigação de fazer pelo nosso povo.

Como jornalistas de favela, honraremos o nosso papel de INFORMAR COM COMPROMISSO AOS NOSSOS AMIGOS, FAMILIARES E VIZINHOS que a solução do Brasil não está na religião e sim na educação ameaçada pelo governo atual. A imparcialidade é um mito, somos honestos e temos um lado. Não somos petistas nem tampouco lulistas, caso recebêssemos esse título, nos tornaríamos a réplica de nosso ex-presidente e concordamos que ele ainda tem coisas a serem corrigidas, contudo no momento atual, ele é a nossa melhor opção. Nós perdemos um dos nossos fundadores, com apenas 27 anos, que chegou a apresentar seu TCC mas não teve tempo de colar grau na faculdade por causa do atraso da primeira dose da vacina contra a Covid-19, que foi minimizada como gripezinha, e negligenciada pelo atual presidente que comprovadamente negociava propina para as primeiras doses, por motivos como esse JAMAIS SEREMOS BOLSONARO. Como apoiaremos um presidente que não conhece o que se passa com a favela? Que diz que não há fome no Brasil quando combatemos diariamente esse problema, ao ponto de encontrarmos entre os nossos, pessoas que se alimentam de casca de fio de internet para saciar algo que ele alega não existir? Somos Lula e caso ele seja eleito, cobraremos dele também porque apesar de ser o nosso representante, jamais fecharemos os olhos para governo algum.

Reiteramos que o nosso posicionamento como jornalistas e fundadores não representa todos os moradores da comunidade. O Perifa é uma comunidade inteira, cheia de diversidade e múltiplas opiniões e pensamentos, mas dentro das ameaças às nossas bandeiras, nós jornalistas do Perifa, assumimos o posicionamento de estarmos com Lula no presente momento, tranquilos e conscientes de que a nossa história e trabalho precisam encontrar amparo.

Gilberto Luiz e Martihene Oliveira

Escrito por:

Sargento Perifa

sargento.perifa@gmail.com

Os sargentinos, como gostam de ser chamados, são pessoas que possuem laços fortes de identidade entre si. Orgulhosos do lugar onde moram, sempre estão criando iniciativas para a melhoria de todos.