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Áreas mais afetadas pelos desastres ambientais causados pelas chuvas têm uma coisa em comum: são periferias

12/dez/2023  |  Sargento Perifa

Ano após ano a periferia chora pela falta de responsabilidade do poder público.

Por Jeniffer Oliveira

Alagamentos, deslizamento de barreiras, destruição, morte, tragédia. Essas têm sido as referências de Pernambuco nos últimos dias, desde quando começaram as fortes chuvas há quase 1 semana, resultando em quase 100 mortes e 5 mil pessoas desabrigadas. Os holofotes estão virados para comunidades do Grande Recife que foram afetadas em um nível nunca imaginado (ou já, dadas as circunstâncias).

No último sábado (28), dia mais crítico e trágico, várias pessoas foram afetadas pelas fortes chuvas no Grande Recife. Muitas mortes, muita tristeza. A população perdendo tudo o que tinham, sem saber o que fazer nem pra onde ir. Mas só as chuvas não justificam as quase 100 mortes que houveram, uma das maiores catástrofes na história do Estado.

Historicamente moradores de áreas vulneráveis são os mais atingidos e isso é o reflexo da falta de interesse em investir em políticas públicas realmente efetivas para resolver o problema dessa população.

Já foi identificado, de acordo com o relatório do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU), que com as mudanças climáticas causadas pelo aumento do nível do mar, Recife é a capital mais ameaçada do Brasil e a 16ª cidade do mundo.

E ainda não se criou um planejamento efetivo e preventivo para mudar esse cenário. Quando o desastre acontece, é possível ver equipes engajadas para tentar reparar o dano irreparável. Mas no momento de agir para evitar essas mortes a presença é inexistente.

Enquanto vidas, em sua maioria pretas e pobres, são perdidas na periferia, não se ouviu falar em morte pelo mesmo motivo em bairros de classe média e alta. O que reforça a desigualdade e o racismo ambiental que fica escancarado cada vez mais. Mas, esses problemas não são de hoje, a periferia sofre com a precariedade diariamente.

COMUNIDADE DO RIO MORNO

Na comunidade do Rio Morno, Zona Norte do Recife, todas situadas às margens de um braço do Rio Beberibe. O Sargento Perifa, visitou a comunidade no ano passado e viu que a precariedade já fazia parte do cotidiano dos moradores.

Algumas pessoas já haviam saído do local, era possível ver casas abandonadas e vazias, mas a grande maioria continuou lá por falta de opção. Na verdade, falta tudo. Saneamento básico, capinação, segurança e, sobretudo, o direito básico de ter uma moradia digna.

Visita do Sargento Perifa à comunidade do Rio Morno, em Linha do Tiro: Foto: Gilberto Luiz

Hoje as pessoas da comunidade estão abrigadas na Escola Municipal Paulo VI, na rua Guaíra, em Linha do Tiro. Na noite de sábado, de acordo com o conselheiro tutelar do bairro, Dário Santana, existiam cerca de 50 famílias da comunidade do Rio Morno e de áreas de risco vizinhas desabrigadas.

Dona Maria Zelma, foi uma das vítimas, teve a casa invadida e só conseguiu tirar os documentos e o rádio. Perdeu roupas, fogão, botijão de gás, tudo. O que ela tem no momento é a incerteza do que vai ser feito daqui pra frente, de onde vai morar e como vai reconquistar seus pertences.

Maria Zelma, abrigada na Escola Municipal Paulo VI após a casa ser invadida pela água. Foto: Martihene Keila

COMUNIDADE DA VOVOZINHA

Na comunidade do Canal da Vovozinha, em Santo Amaro, a situação não se difere muito. Aproximadamente 30 famílias vivem às margens de um canal que quando há chuva intensa, transborda e destroi tudo. Martihene Keila, jornalista e co-fundadora do Sargento Perifa, foi conferir o estado da comunidade e conheceu seu Ernani, que mostrou até onde a água chega em períodos críticos. Ernani ainda afirmou “a gente só está aqui porque não tem onde morar, e sem emprego também”.

As chuvas fortes só escancararam a condição precária que as famílias já viviam antes mesmo de se imaginar os eventos climáticos que o Estado presenciou. Ali se vive com pouco e se perde tudo.

Situação da Comunidade da Vovozinha escancara vulnerabilidade social. Foto: Martihene Keila

COMUNIDADE LINHA FÉRREA

Na Linha férrea, como o próprio nome sugere, os moradores têm suas casas às margens de uma linha de trem desativada e da AV Sul, no bairro de São José, a área Central do Recife, entre o centro comercial e a Zona Sul. 38 famílias também vivem num cenário de precariedade cotidianamente. Falta de tudo e no período de chuvas a situação só piora.

Comunidade Linha férrea, Zona Sul do Recife. Foto: Sargento Perifa. Foto: Sargento Perifa

Lá os moradores ficam ilhados, os que não têm a água invadindo suas casas, não podem sair sem se arriscar enfrentando os alagamentos. Uma moradora nos enviou um vídeo que mostra a situação do local na última segunda-feira, quando as chuvas deram trégua. Como é possível ver, o alagamento, não.

O cenário do abandono pelo poder público chega a ser angustiante. Quantas pessoas ainda precisam morrer e perder tudo para que haja alguma solução efetiva? Todos do Grande Recife, com o mínimo de humanidade, compartilham do sentimento desolador de tristeza pela situação em que milhares de famílias se encontram. Também não é para menos. Talvez se essas pessoas estivessem ocupando um outro território, em uma outra realidade que é enxergada pelo poder público, não teriam passado por isso.

Escrito por:

Sargento Perifa

sargento.perifa@gmail.com

Os sargentinos, como gostam de ser chamados, são pessoas que possuem laços fortes de identidade entre si. Orgulhosos do lugar onde moram, sempre estão criando iniciativas para a melhoria de todos.